quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Viver, ou viver?

Este livro, na verdade, é uma ridícula carta de amor, porque como já bem disse Fernando Pessoa, enquanto Álvaro de Campos, todas as cartas de amor são ridículas; não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Ora a alguém, ora a algo, seu destinatário varia de acordo com a criatividade e o amor com que é lido, relido, interpretado. "Amar, é sentir prazer pelo perdão, pela renúncia, e pela vontade de amar", e é a partir desse escachoante sentimento, que erigem-se as palavras de minhas cartas de amor.
É também uma crítica libertária, uma vontade, através da poesia (em todas as suas formas de manifestação), de dizer "não" ao comodismo, ao conformismo, à covardia, e à falta de percepção, alguns de nossos maiores algozes, enquanto impedem-nos de descobrir e exercer nossas verdadeiras e vitais vontades. Camuflam o nosso querer com o limite pífio dos balouçantes estandartes do progresso capitalista, do mora-lismo tendencioso e hipócrita, e do pecado em viver, não simplesmente.
Escrever é libertário, expõe-nos ao ridículo das pessoas (e à nós mesmos). O temor de que achem-nos ridículos esconde a vontade, inibe o querer. É uma das heranças esdrúxulas da repressão à naturalidade, da qual somos vítimas e praticantes, e com a qual convivemos desde os mais remotos tempos do homem, a constituir um como que bloqueio de nossa natureza pensambunda. Por isso é tão difícil criar, é tão difícil amar, e sair por aí gritando com todo mundo que aparece na frente: Te entendo! Te perdôo! Te amo! Te amo!
Amor em estado bruto, não socializado, não capitalizado, não destilado, não pensado, não rotulado, não formado... apenas sentido. Sem culpa, sem medo, sem pecado. "Querer de passarinho", instinto, liberdade, naturalidade em essência.
Quimérico ou possível? Anômalo? Quererão sentir este amor todos os inatingíveis? Acredito que sim, e vou em frente, agigantado.
    Existem duas palavras, dentre tantas, que representam muito bem o que falo, e que gostaria de expor: Percepção e Conquista. Represento-as com um poema:
Vencer
Um dia:
Sonho de tocar
A fundo o ser.
Outro:
Realidade.
Ter tocado...
Realmente.
Qual maior conquista quereria eu? Humildemente desconheço-a.
O diálogo é companheiro do bem viver. Não apenas o diálogo verbal, mas o corporal, o escrito, o afetivo, ou qualquer outro meio em que possamos expressar nosso querer e conhecer o querer de outro seres ou situações como parte da natureza de se estar vivo. Tenho procurado começar qualquer conversa com os ouvidos, qual quero-me ser ouvido também, sem esquecer-me de minha importância vital no diálogo caminheiro, vindouro, fruto dessa permuta magnífica de amor, que muitas vezes esquecemo-nos de praticar. Na verdade nem damo-nos conta disso, e é aí que entra a palavra "percepção", que é a "conquista" da vontade, o querer a vontade, a vontade de querer. Logo, amor, sem volteios.
Vou me afrontar se souber, desse afronte, haver a possibilidade de achar minha verdade, ou algumas delas. Entendo "estarmos" muito mais que "sermos" aquilo que vivemos cotidianamente. Talvez não saiba o momento exato em que, estancado meu tormento, mensurado meu amor, vi- me liberto da antítese desse sentimento, me encontrando então, uno e incomensurável, inteiro e incrivelmente expansível. Sabendo escorreito o sentido de meu viver, completamente cúmplice de meu eu. Mas, no gigantesco rio do tempo, dista milhões de quilômetros do fim a peregrinação por nós mesmos, e inúmeras as chances de reconquista, nunca definitiva, nunca finita.
Viver a poetar, fazendo declarações de amor à vida. Devo explicar que vida, nesse caso, não é no sentido biológico, e sim, poético mesmo. Muitas vezes, tem-se a vida numa tipóia, com o pensar andando de muletas, e com nosso mundo cambaleando de febre. Em geral é assim, contentamo-nos com o produto fácil e falso fabricado e difundido a pleno vapor, inclusive por nossa própria falta de percepção, por não fazermos muito esforço para olhar acima dessa enorme linha horizontal sobre nossas cabeças.
Criar mais, expor idéias e sentimentos, indagar possibilidades além, consumir menos o produto da preguiça do raciocínio, e salvaguardar objetivos e quereres enrustidos no homo, enquanto sapiens. Para isso, é salutar o discernimento entre o adquirido com o passar do tempo, e o que é natural e espontâneo do querer. Então, para fazer valer verdadeiramente a vida biológica, deve-se evitar que nossa poesia entre em estado de coma.
Chamo de poetas as pessoas que conseguem fugir da cultura retrógrada. São pessoas que conseguem amar sem se apoderar e destruir seu próprio amor (objeto ou sentimento). Pessoas que conseguem ver, além do casulo, a maravilhosa borboleta possível da vida. Talvez um poeta côncavo, que nunca escreva um verso, mas que reconhece a beleza das coisas simples da vida, e assim, desenha uma árvore frondosa e frutífera de poesia. É à sombra desta árvore que os amantes e os poetas convexos escrevem seus versos e desenham suas próprias árvores, num paraíso poético em que o ar se purifica com a clorofila lúdica das árvores da percepção.
Quem consegue trazer à lume seu querer, desnuar-se do medo e do desamor, envereda-se por um caminho que está mais próximo à felicidade. É imprescindível, para se amar, libertar-se do papel de coadjuvante da própria vida, exorcizar o passado "engolido" a contragosto para que se possa degustar deliciosamente o querer, caracterizando assim, um viver mais pleno e essencialmente cúmplice dessa individualidade. A vida não é estar em busca de um final, um objetivo cumprido; viver é percorrer o caminho no presente; no passado um pouco, no futuro um pouco, mas sempre no presente. Vive bem quem trava com seus desafios um caso de amor explícito.
Os desafios, estes nossos implacáveis algozes, dão chances de, na dor, catapultarmos o medo à condição de mestre, despertando-nos desse sono induzido, e entregando, se formos capazes de perceber, a lucidez que faltava para entendermos que estamos vivos para a vida, para que abramos clareiras na mata desconhecida e instigante dos sentimentos. Estes sentimentos, quando genuínos e inteiros, sem nenhum acessório burguês que os corrompa, é o que a vida de melhor pode nos dar, unicidade que remonta diretamente de nossos desejos primários do instinto.
A vida não pode ser abstrata, não pode ser sempre "levada". Deve-se tentar construí-la, procurar fazer com que esteja mais à nossa disposição que estarmos à sua. Sem rigorismo é claro, mas também, sem ser conivente com a falta de vontade própria. "Non ducor, duco", (do latim: não sou conduzido, conduzo). É preciso dar um sentido à vida, fitá-la de perto. De vez em quando é bom gritarmos com nós mesmos: "Às favas as coincidências, viva a conquista!". Travar com o viver uma amizade recíproca faz enriquecerem-se os motivos para abster-nos do egocentrismo e do pedantismo causados pelo medo.
A busca de uma vida "menos exatas e mais humanas", porque artesanal, propicia fecunda e deliciosa sensação de liberdade, fazendo com que aos poucos, percebamos que trazemos a muito tempo nos ombros o peso de tudo pelo qual passamos, e que se pode reciclar o que realmente nos pertence do que é só lixo, podendo ser ecologicamente descartado ou transformado, perfumando o caminho dos que acompanham-nos com a fragrância da liberdade.
Nesse percurso, a criatividade caminha lado a lado à prática do amor, um pratica o outro, mas os dois não devem ser confundidos. À prática do amor cabe ser criativo, e a criatividade necessita de seu estímulo renovador. Esta cumplicidade lúdica completa as necessidades biológicas do ser humano, assim como a própria dor, que não pode ser reprimida ou disfarçada, para que possamos decidir se ela é ou não necessária, concebendo assim, se possível, o bálsamo legítimo à sua cura.
Grande parte da poesia de nossas vidas cabe ao nosso poder de percepção, que clareia as possibilidades e potencialidades pertinentes a cada um. Mostrando assim, que não somos exímios covardes, e sim, acovardamo-nos, fomos acovardados, fomos viciados em medo e poder, o que nos causou um materialismo afetivo ao qual é difícil renunciarmos. Essa percepção às vezes nos leva a um patoá demasiado restrito, anacrônico amiúde; mas delicioso é o desafio de vencê-lo.
É dolorida a abstenção do medo. Solitária, muitas vezes. Mas essa solidão algoz vertem verdades contidas em nosso querer que só descobrimos agindo com muito afinco em nossa empreitada de construir um alicerce para o nosso amor que esteja firmemente preso a mais etérea liberdade. Não vivemos numa sociedade em que o pensar é estimulado, pelo menos não deliberadamente. Ao autoritarismo hipócrita convém a manutenção dessa submissão, muito útil e atrativa à prática do poder dominador da grande maioria das instituições.
A percepção separa o querer verdadeiro do querer que nos foi imposto que se pode querer. Revela nosso dinamismo, nossa potencialidade, nosso poder de decisão e autonomia. Explicita-nos que ser demasiado cauto, é estar demasiado morto. E impeli-nos a desbravar nosso caminho de forma maravilhosamente edificante, fecunda, e extremamente estimulante.
    Esta trajetória de conquistas é também de vivência do desamor. É um tempo de contrastes, de experimentos, de encarar cada desafio com a mesma alegria, inde-pendentemente da perspectiva de vitória ou derrota. O que importa é vivenciar intensamente cada sentimento como a expressão máxima de nossa liberdade. Usar em nosso viver o verbo "sorrir" sempre no presente, e simplesmente assim, ofertar à posteridade essa alegria em nosso passado, presente e futuro.
Não são raras porém, as vezes em que os olhos são tapados como numa cena de terror no cinema, para que não se veja a realidade. Às vezes conseguimos nos enganar de tal maneira que passamos a acreditar que nada aconteceu realmente. Passa a existir uma fantasia mentirosa e covarde de algo que precisamos que exista para que não seja enfrentado o desafio, servindo como um escape fraudulento, uma fuga em sentido contrário ao do confronto esclarecedor, onde o medo suplanta a poesia e esfacela o poeta; encobre toda a criatividade e competência que temos para agir espontaneamente, ocasionando então, uma vida sem nenhuma interseção com nossa originalidade.
As fraquezas, ou primeiramente, a vergonha em admiti-las, atrasa o caminhar; o que poderia ser fato, é dúvida então, a ser resolvida, avalizando assim, a manutenção da dor à sombra dessa algoz escolha. A fraqueza em si, pode ser natural, mas a vergonha é adquirida, é social, e não só pode como deve ser encarada, a fim de irromper as fronteiras do medo em favor da liberdade de fazer agir nosso verdadeiro eu.
A morte em vida está implícita exatamente nesse raciocínio fálico que cultivamos inutilmente. Falta-nos lucidez e humildade para entender as coisas de forma mais clara e menos induzida, menos aceitada simplesmente como única alternativa possível.
A humildade nos faz reconhecer que a verdade pode ser ambígua, ou mesmo que existam outras verdades além da acreditamos. E é engrandecedora a sensação de ter o direito de reconhecer nosso tropeço, fazer tudo de novo sem culpa imposta. Com coragem, experimentar a vida como uma cândida oportunidade de tentativa e erro e conquista da prática do querer verdadeiro. É essa a consciência humanamente afável que leva ao esplendor de patrocinar o amor por onde nos levem nossas surradas mãos, alcancem nossos braços, e sejam ouvidas nossas palavras.
Sou um realista utópico e um fantasista convicto; em outras palavras, não me sinto bem em trocar minha liberdade por segurança. Preciso descobrir, para eliminá-los, se possível, os mecanismos ortodoxos que levam a uma vida inóspita, a não ser em função do coletivo, o qual nunca pode ser transgredido, sob pena de sermos hereges da doutrina burra, onde nossa criatividade é proeza de somenos. Prefiro o risco e a sinceridade à dúvida e às mordomias enganadoras desse autoritarismo paternalista e escravizador. Meus algozes têm despertado em mim a busca por contrastar minhas necessidades libertárias e meus vícios e medos concebidos por estar tradicionalmente ligado e incluso na mesma sociedade que pratica-os cegamente. Tento encontrar objetivos mais claros e que dêem prazer de estar vivo para a vida, sendo mais autor que espectador. É a razão de ser deste livro, desta carta de amor aos meus verdadeiros valores e tudo o quanto eles possam representar para meu ser, para quem, e para o que amo. Explicito que entendo também a poesia como sinônimo de vida, de percepção e de conquista. A vida, enquanto poesia, é mais prazerosa, mais romântica e mais sincera. Assumo esse papel ridículo aos olhos da crítica demagoga e fácil, produzida pelos "espectadores" de plantão, aptos a vociferar seus próprios desejos de liberdade camuflados em aspereza, preconceito e repressão, por sua suposta onisciência. Se ser ridículo é ser liberto, quero ser desprovido da mínima vergonha de ridicularizar-me a todo instante, e em todas as ocasiões em que puder sê-lo.
Creio ter exercitado meu amor com estas palavras. Como já disse, é libertária a prática do querer e eu quero o meu aqui bem perto de mim, para poder praticá-lo em todos os momentos possíveis de minha vida. Esta carta de amor me ensinou um pouco mais a respeito do que me liberta de meus vícios em medo e poder. Hoje me sinto menos vassalo e menos suserano, menos morto e mais vivo. A cada instante aprendo um pouco mais sobre essa nossa sede abstrata de sentimentos.
As poesias a seguir são líricas individualmente, mas me ajudam a contar minhas histórias de amor enquanto instantes e quereres de minha poesia. Leia com olhos libertários, perceptivos. E se por acaso, após a leitura, haja-te atingido o amor... que bom! É porque despertaste, nessa conquista, por um instante que seja, de sua morte em vida.
Era uma vez...
Autor: Anderson Ribeiro

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Todos estes que aí estão, Atravacando meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho.” Mário Quintana
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